O SEGREDO DA DIVERSIFICAÇÃO

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O segredo da diversificação

Sempre que falamos em investir, vem algum familiar ou amigo imediatamente com aquela frase pronta: “cuidado, é muito arriscado”.

Infelizmente, esse senso comum vem da falta de educação financeira em nossas escolas. Nunca aprendemos a poupar ou investir, então intuitivamente achamos arriscado. É natural do ser humano temer o desconhecido.

Isso é bom, mas, ao mesmo tempo, ruim.

O medo nos protege do desconhecido, deixando-nos sempre alertas e buscando maneiras de descobrir mais sobre aquilo de que temos pouco ou nenhum conhecimento para enfrentar com confiança e sabedoria.

Por outro lado, quando deixamos esse medo do desconhecido se transformar em preguiça de aprender coisas novas, ficamos acomodados e com crenças limitantes do tipo: “não tenho tempo para estudar isso” ou “o assunto é complexo demais para mim”.

Terei que dizer uma verdade aqui. Se você não tem tempo para cuidar de sua vida financeira, passará o resto de sua vida como escravo do dinheiro.

Trabalhar, receber o salário, gastar tudo. E o ciclo recomeça.

Isso quando não temos algo ainda pior: gastar tudo o que não tem, trabalhar muito, receber o salário e o valor ser todo consumido para pagar suas dívidas.

Onde fica a tranquilidade agora? Como juntar dinheiro para alcançar seus sonhos? O que aconteceria em caso de imprevistos?

Felizmente, aprender a poupar e investir não é tão difícil assim. E neste artigo mostrarei que também não é tão arriscado quanto parece, desde que você esteja disposto a estudar.

Os cenários de risco

Talvez você conheça um amigo ou já tenha visto na televisão sobre alguém que investia na bolsa de valores, ganhou muito dinheiro por algum tempo e, da noite para o dia, perdeu tudo o que tinha.

Daí o grande motivo de falarem que investir é arriscado demais.

No entanto, o risco não está no investimento em si, mas sim no operacional, na estratégia e no controle de risco empregados.

Vejamos alguns cenários para termos alguns exemplos:

Cenário 1

A pessoa pega toda a parte do salário destinada a investimentos e coloca em alguma ação. Em seguida, vê uma valorização e resolve vender, com bom lucro. Faz isso seguidas vezes, pois está dando certo, sempre acrescentando a poupança de um novo mês para aumentar os ganhos.

No entanto, uma crise chega e aquela ação começa a despencar. A pessoa tem a chance de vender com certo prejuízo, mas ainda salvar parte de seu dinheiro.

Porém, ela pensa: “preciso recuperar esse prejuízo”. E a ação continua caindo.

Devido ao cenário desfavorável, a empresa na qual estava investindo decreta falência. E o que acontece com a ação? Vira pó.

Todo o dinheiro guardado e investido durante anos desapareceu de uma só vez.

Cenário 2

A pessoa tem um imóvel para alugar e ganhar uma renda passiva a mais. Não tem nenhum outro tipo de investimento, pois acredita que o imóvel é o bem mais seguro e confiável.

O inquilino é muito bom, paga em dia, cuida do imóvel e nunca deu problema nenhum.

Entretanto, esse sujeito perdeu o emprego e agora não tem mais condições de manter o aluguel. Começa a atrasar os pagamentos e a ficar inadimplente, jurando que dias melhores virão e ele conseguirá pagar tudo o que deve.

Mas passam-se 8 meses e nada.

Você resolve entrar na justiça para tentar receber o que lhe é devido e também despejar aquele locatário. Só que aí serão meses (talvez anos) de processo até ter o retorno de seu capital.

Agora, com o imóvel vazio novamente, sem renda extra nenhuma, gastos com IPTU, condomínio, manutenção e tendo que correr atrás de novo locatário. Que dor de cabeça, não?

Cenário 3

A pessoa deste cenário também tem um imóvel e, além disso, investe outra parte em ações de uma empresa.

Vamos supor que ela tenha em ações o correspondente ao valor do imóvel, ou seja, 50% de seu patrimônio.

Caso ela venha a perder todo o montante das operações em ações, ainda sobra 50% de seu capital que está ali no imóvel e com um inquilino pagando parte da renda.

Por outro lado, caso o inquilino saia, a pessoa ainda pode gerar uma renda com suas ações.

O problema aqui é se perdesse o inquilino e ainda a empresa em que está investindo falisse.

Sua renda passiva iria a zero.

Cenário 4

A pessoa tem um imóvel, investimentos em uma ação, investimentos em um fundo imobiliário e uma parte em Tesouro Direto (25% do patrimônio em cada um deles).

O grande risco aqui seria de o inquilino do imóvel sair, a empresa falir, os inquilinos do FII saírem ou o Governo dar calote no título público.

Nesse caso, o impacto direto seria de 25% em cada uma das situações.

O importante a saber é que, dificilmente, tudo isso aconteceria (pelo menos, ao mesmo tempo).

Cenário 5

Agora, imagine o investidor que tenha esses mesmos 25% investidos em cada modalidade de investimento, mas agora tenha: 3 imóveis, investimentos em 10 ações, investimentos em 12 FIIs e, em vez de ter apenas investimento em Tesouro Direto, tivesse também títulos privados (CDB, LC, LCI, LCA) e debêntures.

Se acontecesse algo com o imóvel, o impacto seria de pouco mais de 8%. Se uma das ações falisse, o impacto seria de 2,5%. Se um dos FIIs perdesse toda a renda (ficasse totalmente vago), o impacto seria de pouco mais de 2%. Se o Governo desse calote, não perderia mais os 25%, impactaria apenas o percentual destinado a Tesouro Direto.

Acho que, a esta altura, você já entendeu aonde quero chegar e já captou a principal ideia: diversificação.

O que é diversificar?

O conceito de diversificação é simples e está presente em nosso dia a dia, mesmo que não tenhamos dado conta disso.

Vovó sempre dizia que, quando vamos à feira, não devemos colocar todos os ovos na mesma cesta, pois, se uma das cestas cair no chão e quebrar os ovos, teremos ainda os outros ovos intactos na outra cesta.

Da mesma maneira, muita gente carrega dinheiro vivo, cheque, cartão de crédito ou débito, normalmente não apenas um. Isso porque cada forma de pagamento tem suas características específicas e não sabemos quais estabelecimentos aceitam uma ou outra, ou quanto dinheiro vivo devemos carregar para arcar com todos os gastos do dia ou da semana. Enfim, são muitas variáveis e acabamos usando a diversificação para estarmos preparados para cada situação.

A mesma ideia deve ser usada para os investimentos.

Ao diversificar, tentamos absorver o melhor de cada ativo diferente, ao mesmo tempo em que diminuímos o impacto negativo que algum imprevisto em algum ativo possa trazer à nossa carteira de investimentos.



O que é uma carteira de investimentos?

A carteira é o conjunto de ativos que temos, ou seja, a junção dos nossos títulos públicos, títulos privados, ações, fundos imobiliários, moedas, imóveis físicos, etc.

Podemos montar a carteira definindo percentuais que queremos destinar a determinadas modalidades de investimento.

Na carteira do Cenário 5 acima, teríamos, hipoteticamente, a seguinte estrutura:

Imóveis físicos (25%):
Apartamento A (8,33%)
Casa B (8,33%)
Escritório C (8,33%)

Ações (25%):
10 ações com 2,5% em cada uma

Fundos imobiliários (25%):
12 FIIs com 2,08% em cada um

Renda fixa (25%):
Tesouro Direto (10%)
Títulos privados (10%)
Debêntures (5%)

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Não estou aqui afirmando que essa carteira e essa diversificação sejam as ideais. Cada investidor deverá fazer suas próprias escolhas de acordo com perfil e objetivos.

Não há percentuais ou número de ativos ideais. Sua carteira deve ser moldada de acordo com sua própria percepção de cada investimento.

Cuidado com a pulverização

Um erro comum que temos ao iniciar os investimentos é de tentar seguir a diversificação tão ao pé da letra que acabamos pulverizando.

Pulverizar seria distribuir o dinheiro em vários ativos sem antes estudá-los, com a percepção de que estaria com menor exposição, mas, na verdade, estaria aumentando o risco, pois você investiria em ativos que não conhece bem e que podem ter riscos muito superiores aos outros de sua carteira.

Além disso, se tiver investimentos demais e não tiver condições de fazer aportes constantes neles, é muito arriscado ficar com um preço de investimento muito mais alto do que deveria, conforme vimos no artigo sobre os 5 erros que me fizeram perder 70% na bolsa.

Também pesaria o fato de que teríamos muitos investimentos para estudar e acompanhar, o que nos estressaria muito caso não fizéssemos por prazer.

Fora que, ao investir em 20 ações diferentes, o risco de acontecer algo com uma delas é muito maior do que ao se investir em 10, não é mesmo?

Portanto, nunca confunda diversificação com pulverização.

Como fazer o controle de risco?

Muitos especialistas defendem o controle pela alocação de ativos, que consiste em definir o percentual que deseja destinar a cada modalidade (como fizemos anteriormente) e reavaliar, a cada novo aporte, como está a nova porcentagem da carteira (pois alguns ativos sobem e outros descem, nesse período) e alocar naquele com o menor percentual em relação ao definido inicialmente.

Como já me alonguei muito neste artigo, deixarei para me aprofundar sobre essa estratégia em outra oportunidade.

Caso você tenha interesse, recomendo este excelente e-book do Henrique Carvalho: Alocação de Ativos.

Considerações finais

A ideia de que investir é arriscado demais vem simplesmente da falta de conhecimento sobre cada tipo de investimento e de não ter uma estratégia bem consolidada.

Esse medo é facilmente eliminado quando começamos a estudar e entender a dinâmica desse mundo financeiro.

Diversificar é o grande segredo para qualquer estratégia no mundo dos investimentos.

Mas nunca se deve confundir a diversificação com pulverização.

Aprenda a fazer um controle de risco adequado e você com certeza se sentirá muito mais tranquilo com seus investimentos.

Caso tenha ficado alguma dúvida, fique à vontade para perguntar.

Grande abraço!

Vitor Hernandes